manhã de domingo

Um mal estar instala-se em mim, o discurso identitário, comunitário que separa e não repara, que coloca uma lente de nihilismo e destrói sem projeção de futuro melhor, porque isso é agora uma forma de colonizar o tempo a vir e  não mais um ato político: o ato de pensar o espaço coletivo. Um aparente olhar de correção: individualista, hedonista e momentâneo, no qual uma parte das pessoas são culpadas e outra parte vítimas, todas de forma permanente! Numa espécie de julgamento da humanidade, sem possibilidade de redenção ou até de nuance. Esse olhar é também o da dúvida como objetivo final, não como meio para alguma coisa. Análises e olhares estes, que negam a ideia de povo, de luta de classes, concentrando os seres humanos em caixas estanques, divisórias e discriminatórias em função do seu sexo, onde doravante a biologia não é convocada mas apenas a mente e consciência individual. De etnia que doravante é outra vez raça, de forma a ser possível introduzir e dialogar com esta noção, renega-se a ciência exata para que as considerações ideológicas no âmbito das ciências sociais possam ser ponderadas à luz da mesma evidência. O mal estar é o da decadência da civilização europeia, de cariz  greco-romano e matriz judaico-cristã, tal como Michel Onfray desenvolve na sua obra Decadência ou ainda Achille Membe. E neste estado de letargia da civilização europeia, civilização essa onde me inscrevo, uma parte dos seus constituintes parece procurar polos de agregação comunitários. Os identitários de esquerda e de direita parecem ser os mais ativos no discurso público, nas redes sociais, na esfera académica. Os de direita, como ouvi um comentador francês a dizer um dia, encontram nas diversas formas de populismo esse espaço de grito desesperado e os de esquerda, uma que é mais semântica que política digo eu, renegam o humanismo e o colectivo, ao adotarem um discurso teórico de desconstrução desse humanismo universal, agora considerado um aliado ou ainda o substrato ideológico dos impérios colonizadores europeus dos séculos XV ao século XX, portanto e à luz do maniqueísmo puritano, a encarnação do mal!

A luta de classes não sei bem onde fica, quando se nega a uma parte da humanidade a condição de existência para lá do binómio vítima- carrasco. Existe ainda um quadro político que alguns nomeiam como republicanos humanistas, onde se inscrevem todos os outros quadrantes, que à força da governação democrática dos últimos 30 anos, facilmente são agregados à implementação de um modelo social e económico neo-liberal, de inspiração norte-americana. E a meu ver, é neste neo-liberalismo que se inscreve o movimento identitário de esquerda, na sua recusa do pensamento do coletivo e na consequente concentração no indivíduo de todo o caminho, adoptando-se o pior do modelo religioso dos Estados Unidos, na invocação de uma matriz maniqueísta moralista, os bons e os maus, os justos e os pecadores, manifestando também uma continuidade ideológica com o estruturalismo francês, em seguida alimentado por um modelo individualista e maniqueísta religioso no agora pós-estruturalismo norte-americano, interseccionista, identitário.

É curioso pensar que durante alguns anos uma certa crítica social adereçava a hegemonia do patriarcado branco, heterossexual e cristão. Recentemente afastando-se a crítica à doutrina católica e aqui, mais uma vez, considero a importância dos Estados Unidos no definir deste estado de pensamento, dado a igreja católica cristã representar um pilar essencial da sociedade e estado americanos (In God we trust) e uma parte das comunidades afro-americana e latino-americana, que representam uma força nesta discussão, enquadra-se neste quadrante religioso. Muitas vezes contribuindo para uma misturada, que, do meu ponto de vista português e europeu naturalmente, se assemelha a uma manifestação de proselitismo e de distanciamento político face ao conceito de laicidade, ou seja, da separação de poderes entre a igreja e o estado.


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