Évora, quando quase comecei um doutoramento

Levo na cabeça a conversa do dia anterior com o Micaël: o papel que a fotografia tem ou não na minha vida, o trabalho, o meu percurso, o que foi, o que é, o que será.

A paisagem começa a mudar na janela do autocarro, sim o Alentejo!

Quase que soa a cliché, mas toca-me e muito!

Acedo ao wi-fi e publico o último post das Mademoiselle Photo.

Não gosto das imagens que fiz, acho-as naif e isso faz-me pensar nessa dimensão das minhas imagens, boazinhas e ingénuas, desinscritas da vida, desinscritas até de mim.

Volto ao doutoramento e às questões inerentes ao financiamento. Chego a Évora e passo o dia a ver e a analisar tudo. Dois momentos fazem pop-up.

Um que suscita de forma imediata este texto: o doutoramento honoris causa atribuído pela universidade de Évora a Álvaro Siza e José Cutileiro. E um pequeno evento a que assisto enquanto almoço na Cozinha da Catarina.

Ambos falam do facto de que somos, em parte considerável, produto do reflexo que nos chega dessa entidade chamada o outro.

Voltando à cerimónia, o Joaquim guia-me pela história do colégio. Ele e o José Cutileiro estudaram aqui, em épocas diferentes, no período em que o o colégio foi liceu.

O cortejo académico dá inicio ao evento, acho curiosas as roupas extravagantes de alguns catedráticos que me remetem para a rainha de Inglaterra. Penso no latim ainda tão presente nas tradições académicas e naturalmente penso nos meus amigos da música antiga.

interessante o facto de a universidade de Évora ter uma reitora. Questiono-me de que área académica virá e qual será o seu perfil pessoal.

Penso que carrego o pensamento de que sendo mulher terá de ter um percurso profissional e/ou personalidade mais extraordinários do que seria pedido a um colega homem. Talvez já nada disso corresponda à realidade.

Alexandre Alves Costa começa a discursar. Divago imediatamente para o Porto e para as ligações que a sua família teve desde sempre com a história do cinema português e portuense.

Quando Álvaro Siza começa a discursar, reconheço-lhe de imediato a hipercorreção linguística, tão caraterística da classe média alta e alta, da zona da Foz do Porto.

Mas o seu discurso é a de um criador, que aponta críticas às instituições investidas de poder. Imagino que não seja fácil.

Não imagino. Revejo no meu caminho, o dilema das opiniões que se extremam ou colidem no decorrer do trabalho.

Escrevo uma nota sobre o escultor falhado, o arquiteto mundialmente reconhecido de facto queria ser escultor, conta Alves da Costa.

Ouço-os falar do projeto no bairro da Malagueira. Durante o dia penso no meu projeto de retrato- Momentos de um tempo em pausa– e penso que o posso estender para Évora e para o bairro da Malagueira.

Anoto o que o senhor Siza diz: “Nenhuma obra capaz de transformar a cidade é pessoal.” E ainda: ” A estética do inacabado.”

Este, também meu, drama entre a beleza e a intensidade do discurso.

Ouço o senhor Cutileiro. Penso no meu pai. São da mesma geração.

A dificuldade no andar é superada pela energia, alegria e entusiasmo no discurso.

Penso no porquê da atribuição deste dois doutoramentos honoris causa, a arquitetura e a antropologia; que comentário estará aqui desenhado sobre a universidade?

Pausa.

Momento dois, temporalmente anterior. Almoço febras grelhadas.

À minha frente uma mesa de seis pessoas, pais, filhas, genros.

As senhoras mais próximas da minha mesa, mastigam a comida com um ar enfastiado.

Entra um senhor, entre os 40 e 50 anos que vende cautelas da lotaria. Coxeia.

Vejo que tem um nível de deficiência nas duas mãos e acima de tudo, atesto nos minutos em que fico atenta à cena, que é tímido e parece a todo o momento querer fazer blend in com o ambiente.

Continuo a olhar. O homem- cauteleiro, passa o lote de cautelas a um homem na mesa e que fica durante muito tempo a observar uma a uma, todas as cautelas.

Mantenho o olhar na cena, nenhuma razão parece-me existir para que o comprador tenha que ter as cautelas na mão. O que acontece ali, parece-me ser uma destituição total da importância do trabalho do cauteleiro, pelo homem da mesa.

As cautelas passam de mão em mão pelos comensais e ninguém olha uma única vez diretamente para o homem cauteleiro. O cauteleiro coloca-se perto da minha mesa de forma a não incomodar o senhor da mesa, que bebe Cartuxa sem sujar o pólo Fred Perry, e a sua comitiva.

No momento da compra, as notas são colocadas em cima da mesa; a conclusão perfeita da ação não-sensível com o homem que vende cautelas. Peço o café e saio.

Durante a cerimónia de doutoramento honoris causa, penso no paralelo possível de estabelecer entre estes dois momentos, pela posição oposta que ocupam no espectro das relações humanas.

Parece-me existir uma tendência de atribuição de valor a quem por reflexo ou osmose, poderá retribuir-nos o favor.

Complicando-se, em termos humanistas, esta dialética, quando o outro não nos parece capaz.

Dos discursos na cerimónia, anoto ainda o que me parece ser a legenda final ­para este texto: “A procura de justiça e de beleza, dentro e fora da universidade.”

Muito bem.

Untitled

#Iphone #Évora #ColégioEspíritoSanto

#Outubro #2015

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