Katia

AP-Katia08.jpgSegunda-feira de sol no jardim da Estrela, árvores lindas e estranhas, bons verdes, fortes raios de sol e muitos cinzentos.
A Kátia. Começamos pelo início. Por Angola.
” Sempre brinquei com tudo o que eu criava. No quarto tinhamos prateleiras laranjas vazias que preenchiamos. E acho que fui desenvolvendo o meu lado criativo, o improviso daí e da estranheza linguística, que depois deixou de ser estranha, que viviamos. Ainda hoje a utilizo nas minhas improvisações.”
Falamos da música enquanto herança genética, da mãe, da avó, dos tios. Veio de Luanda para Tomar aos 9 anos, onde ficou até aos 18 anos, quando foi estudar música para Lisboa.
” Cantava quando estava sozinha, as coisas pop que ouvia. Com a voz aberta, sem consciência. Andava pela cidade com os meus amigos, que eram do metal e eu sempre de cor-de-rosa. Pedia-lhes para cantar fado e eles não se importavam e um deles um dia disse-me que eu devia ir estudar música.” Entrou para a Academia de Música e Novas Tecnologias e mais tarde foi para a‪#‎EscolaProfissionaldeMúsicadeAlmada‬, para Canto Lírico.
A professora Ana Leonor Pereira, foi a sua primeira grande professora, seguida por ‪#‎ElenaNentwig‬, numa série de workshops no Centro Nacional de Cultura. Falamos da ligação professor aluno e de como é importante, dificil e desafiante!
Na escola em determinado aparece (como a Katia o chama) o furacão Zé Eduardo a dar aulas de jazz.
AP-Katia00.jpg“Na altura eu ainda não tinha uma cultura musical. Ouvia música étnica e o que passasse na rádio. Mas ele acreditou em mim.
Passados dois anos estava a cantar com uma big band, num tributo a‪#‎VillaLobos‬. Deu-me um início muito bonito. E a partir daí começou um namoro com o jazz.”
Mais tarde vai para o Porto, para a escola de jazz da ‪#‎ESMAE‬.
Falamos dos caminhos na técnica de canto: lírico e jazz.
“Eu sempre estive interessada em saber um pouco de tudo. É possivel traçar caminhos que misturam técnicas diferentes. Se o cantor for focado e conseguir.”
Fala-me da primeira professora no Porto, a Maria João Granja e depois de outro furacão, a ‪#‎FayClaassen‬: “Vinha da Holanda, muito engraçada! Uma voz muito bem trabalhada. E muito boa professora. Trazia muita informação e falou-me que havia uma professora que eu tinha que conhecer, que tinha muito a ver com a minha liberdade de misturar coisas!”
A ‪#‎Rhiannon‬, que trabalhava com a ‪#‎Voicestra‬ do ‪#‎BobbyMcferry‬.
“E lá fui para a Holanda 15 dias, conhecer este tufão. Uma força da natureza. Era a primeira pessoa que me deixava ser livre, que me dava espaço e tempo para me deixar ir à procura…da minha essência. Na altura tinha 22 anos e sentia-me invencível, pela idade, pelo momento, no meio de pessoas que me falavam de coisas que descubro ali me eram importantes: a comida, as plantas, uma forma de terapia, o porquê das vozes, muitas perguntas (…) Três pessoas a olhar para um ponto fixo, concentram-se e começam a improvisar ao mesmo tempo e cresce algo do nada. Se houver confiança e respeito, se todos se escutarem. Esse namoro entre eu tenho voz e é lindo, misturá-la com outras vozes e vamos descobrindo o que podemos fazer juntos, explorar, partir da forma para o som, perseguir a forma. ”
Pergunto à Katia se o criar em conjunto com outras vozes é comum e como lidam os cantores com o seu ego?
AP-Katia07.jpg“Eu procuro esse encontro entre cantores e com os meus alunos também. Procuro e promovo isso. O desenvolvimento da criatividade, a libertação do medo, da e pela a voz. A intimidade que traz a partilha, é importante. Há sempre uma voz!”
A seguir e ainda com a #Rhiannon participa no workshop “all the way in” no Hawai, na Califórnia e em Monte Real, no Canadá.
“O Hawai é um sitio mágico, as pessoas, os cheiros, a comida, a água e lembrava-me muito de Angola. Sinto-me em casa.”
Falamos do apoio dos seus pais e das coisas que foi fazendo, das trocas de aulas de canto por dormida, trabalhos a cozinhar (diz que sái à mãe também no dom da cozinha).
” No último workshop magoei-me nos joelhos e regressei a Portugal. A cura foi por mim, num caminho de desapego. Reconstruir o caminho cá. Em 2010 comecei a dar aulas em Sines, numa escola ligada ao festival de música. Foi um bom sítio para recuperar. No primeiro concerto que consegui fazer de pé, dei de olhos com o Rui e foi amor à primeira vista.
A palavra carreira não me faz sentido no meu precurso, porque há momentos diferentes, vários inícios. Agora penso que consolidei tudo, cantora, compositora, professora. E em Abril vai sair o meu disco. Penso que não andei estes anos todos a praticar ser livre, para agora ser de outra forma. Senti-me livre para escrever o que eu quisesse. Era o que eu ouvia dentro de mim e tive que aprender a escrever o que ouvia.”
Fala-me das pessoas que colaboraram neste disco: “Homens bons, pacientes, pessoas com quem eu gosto de passar tempo.
O ‪#‎RuiPereira‬, meu companheiro, padrinho do projeto e o primeiro baterista que eu senti que me estava realmente a ouvir. O ‪#‎MárioDelgado‬, o ‪#‎BernardoMoreira‬ e o ‪#‎ÓscarGraça‬. Pessoas que já fizeram muita coisa, tem muita abertura e já não tem que provar nada a ninguém. Este trabalho começou há três anos, mas depois adormeci. Engravidei.” Ri-se.
“Eu estou muito grata por tudo o que me aconteceu até agora. E a minha voz tem tudo a ver com tudo o que aprendi e vivi. A música demorou tempo a entranhar-se em mim, para que me fizesse sentido o tribal com o fado, com o jazz e a unicidade que eu trago vem destas experiências todas que te contei.”
AP-Katia06.jpgFalamos ainda da arte-terapia antroposófica, de Rudolf Steiner e da pedagogia Waldorf.
” É muito importante estar agora ao mesmo tempo a dar e a receber! E talvez por isso, agora seja o momento em que o estou a fazer, por poder assumir essa responsabilidade das várias frentes, da música, da letra, das ilustrações!”
Saimos para a rua para as imagens. Vira o foco para mim e pergunta-me: “Porque é que estás a fazer este projeto? Quais são as tuas razões? ”
E daí vamos pelo jardim, entre as imagens e as palavras, que vêm todas, de dentro.

www.katialeonardo.com

Imagens e texto ©MademoisellePhoto

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