Anaísa

AP-Anaisa00.jpgOnze da manhã, café no senhor Jorge.
A Anaísa traz-me os anéis ‪#‎LOVE‬, há muito esquecidos na sua casa.
Sentamo-nos a conversar na avenida de árvores grandes.
O início.
Nasce e cresce no Alentejo e no final do 12º ano vai para o Porto estudar Cenografia na ‪#‎ESMAE‬.
“Sempre quis ir para o Porto estudar!”
No primeiro mês de aulas, trabalha a luz num projeto de curso e descobre o que gosta mesmo de fazer.
Divide o tempo entre a escola e trabalhos na área e fica pelo Porto até 2007.
Vem a Lisboa a uma entrevista de trabalho, ao mesmo tempo que pensa em comprar casa na Invicta. Decide ter calma.
Uma semana depois da entrevista, está em Lisboa a trabalhar.
Torna-se a primeira mulher técnica de luz no ‪#‎TeatroAberto‬.
” Achava que o Porto tinha uma mentalidade mais aberta em relação às mulheres técnicas no teatro, talvez por ser um meio mais pequeno ou pela ligação entre as escolas e o mundo profissional, não sei!
É um equilíbrio dificil de atingir, entre a igualdade de tratamento e as diferenças inevitáveis entre os géneros. Somos diferentes e é nessa diferença que está a verdade e beleza da coisa. Ainda temos que evoluir muito. Todos. ”
Falamos da mudança:” Sempre tive esta coisa de ser viciada nas mudanças! Permite-te recomeçar sem peso e voltar a ti mesma! À tua essência.
Esteve um ano em Bruxelas a fazer um estágio de câmara: “mas sentia falta de sol, muita falta de sol!”
AP-Anaisa01.jpgTrabalha no ‪#‎CentrodeArtesdeOvar‬ como adjunta de direção técnica, perto do seu Porto! Regressa a Lisboa para um trabalho breve no‪#‎TeatrodaTrindade‬. Fica dois anos.
Sái para fazer o mestrado em ‪#‎ArtesCénicas‬ na Nova, mas de lá regressa ao trabalho de freelancer, que a leva a colaborar com uma encenadora finlandesa.
Na Macedónia a meio de um trabalho, candidata-se a uma vaga no‪#‎TeatroMariadeMatos‬ e fica.
Entretanto já passaram três anos. Pelo meio parou um ano e a Alice nasceu.
Para além de técnica de luz, atualmente é adjunta de direção técnica no Maria Matos.
“Tenho uma alma muito inquieta, agora defendo-me não pensando demasiado no que há-de ser.
É até sempre, enquanto tu quiseres!”
Com o nascimento da Alice a sua perspetiva perante as coisas também se alterou.
” O voluntariado neste momento, mantém-me o sangue na guelra! Em casa sempre vivemos o processo de partilha… A questão dos refugiados mexeu muito comigo e quando vi a campanha de recolha de bens da ‪#‎SolidariedadeNãoConheceFronteiras‬, envolvi-me.
Fui lendo cada vez mais sobre o assunto e entendendo as rotas dos refugiados através da Europa e o que se estava realmente a passar!
Não dormia a pensar na situação em que estariam todas aquelas pessoas e decido ir à Grécia.
Essa decisão acalmou-me e sim, é o lado egoísta do voluntariado, esse acalmar as tuas angústias.
Mas pronto, um egoísmo ainda assim positivo!
AP-Anaisa11.jpgUma vez mais com #Solidariedadenãoconhecefronteiras, sendo que nesta missão quem esteve mais envolvida fui eu, a Sandra e a Bárbara.
Organizamos uma recolha de bens, tendo em vista a construção de kits de sobrevivência para mães com bébés que sabíamos estarem em situações precárias.
Tu enquanto indíviduo, podes fazer, podes ajudar!
Uma, duas ou várias pessoas. E encontras forma de o fazeres.’
Depois dos atentados em Paris, as fronteiras são fechadas e as populações que se deslocam, são segmentadas consoante os seus estatutos: refugiados (Síria, Afeganistão e Iraque) e migrantes por razões económicas (Somália, Marrocos, Nepal…) e apenas aos refugiados é permitida a passagem.
É criado um campo aberto em #Idomeni, na fronteira entre a Grécia e a Macedónia, com várias ONG’s, mas sem condições de permanência.
“Quando chegamos, as pessoas estavam ali há 17 dias. Eram distribuídas 2 refeições por dia e o campo já funcionava em modo de sobrevivência.
Com cerca de 70% de homens, as mulheres estavam já numa situação bastante fragilizada…
Contactamos a ‪#‎UNHCR‬ para perceber onde havia lacunas de suporte e ficamos durante uma semana, na receção aos autocarros que vinham de Atenas.
Dar água, gorros para o frio e ajudar a atravessar o caminho de terra batida até à fronteira com a Macedónia. Carregar pessoas, essencialmente crianças porque os pais ou familiares responsáveis por elas, já estavam no seu limite físico.
Todos os dias distribuíamos kits com os donativos que levamos de Portugal e com os bens adquiridos na Grécia.
No último dia que lá estivemos as ONG’s sairam todas, antes do campo ser destruído. Ficamos cerca de 15 voluntários…
AP-Anaisa15.jpgO que senti lá é que uma parte da ajuda estava a ser feita com base no apoio dos indivíduos, em pedidos de ‪#‎crowdfunding‬, mas estas campanhas vão esgotar-se.
E o fluxo de pessoas e as condições em que estão a viver vai agravar-se.
E então, o que vamos fazer?
Eu percebo que tem de haver organização na receção e recolocação na Europa destas pessoas.
Mas o que está a acontecer é uma triagem humana de sobrevivência! Uma prova de resistência da maior desumanidade possível!
Acho que medo é a palavra que define melhor o que senti lá nas pessoas.
E desilusão nos mais velhos. Um olhar sem esperança nenhuma…
Foi pesado sim, mas era mais pesado não ter ido.”
Atravessamos a avenida das árvores em direção às nossas imagens e falamos do que os retratos dizem.
AP-Anaisa22.jpgOntem à noite percebo que para a Anaísa é importante terminar assim:
” De que é que temos medo? ”

Solidariedade não conhece fronteiras aqui: https://www.facebook.com/groups/1480448778926789/?fref=ts

Missão Kanimambo

Lisboa, janeiro 2016, Parque Mayer
Imagens e texto © Mademoiselle Photo

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