Carla

Sinto uma espécie de mergulho no vazio, antes do encontro com quem não conheço.
Ao final da tarde, conversamos sobre esse mergulho que partilhamos.
A Carla nasceu em Angola e veio para Lisboa com dois anos.
Estudou inglês-alemão em Coimbra e voltou para Lisboa para a especialização em tradução.
Trabalhou quase sempre como jornalista. Em rádio.
Em retrospectiva, diz-me, sempre trabalhou para nichos.
Primeiro na rádio Europa Lisboa, num programa chamado Evasões francesas, sobre a comunidade francesa em Lisboa.
Depois em Bona, numa rádio que tinha um serviço para a África lusófona.
Este trabalhar para África a partir da Europa, fê-la pensar permanentemente na sua identidade.
“Foi uma longa caminhada e a partir de 2010 comecei ativamente à procura duma África que fosse minha, não a que eu noticiava.”
MP-Carla21
Em Londres num curso de rádio, desenvolve um projeto que viria a ser a maquete da RadioAfrolis.
Quando regressa em 2013 a Portugal o seu objetivo vem claro.
“Através da Radio Afrolis contribuir de alguma forma para o que são as notícias sobre pessoas como eu!
Para pessoas que foram trazidas e que procuram o seu espaço.
Encontrava muitos contributos do Brasil, dos Estados Unidos, mas não nossos. Não estamos a produzir conhecimento sobre nós! Porquê?
Tenho que saber o que se passa connosco e documentar a nossa presença aqui. Quero criar recursos, para que outras gerações não fiquem no vazio em que eu me encontrei!”
Durante muito tempo sentia que havia questões que não adereçava na sua vida, no quotidiano, nas conversas; um esconder constante de uma parte de si para que a conversa fluisse, mas que lhe criava muita estranheza.
” Porque o outro continuava a olhar para mim enquanto todo, embora eu escondesse sempre uma parte. ” – diz a Carla.
Falamos da importância de definirmos, nos diálogos que estabelecemos, o ponto de onde comunicamos: ” Quando não estás certa da tua identidade, da tua verdade, parece que os outros te estão sempre a tirar o chão.”
” Eu sou lisboeta, sou afrolisboeta.”
MP-Carla17

O audioblogue Radio Afrolis coloca em diálogo as diferentes posições e formas de viver a negritude em Lisboa, ” onde conheço os espaços ocupados e ocupáveis pelas pessoas.”
Para a Carla, a RadioAfrolis é feita também da partilha da celebração.
Mais à frente, deseja que este seu projeto chegue a quem normalmente não procura estes conteúdos.
Neste mundo tão visual, questiono a Carla sobre o formato rádio.
” O audio fascina-me! Gosto de ouvir, de imaginar.
As sensações que a entoação da voz te transmitem.
Consegues aproximar-te de pessoas que se calhar pela imagem poderias não o fazer.”
Sentadas a olhar para o rio amarelo do final da tarde, diz-me ainda que se imagina daqui a uns anos a caminhar pelo mundo e a escrever: “Sou uma contadora de histórias.”
MP-Carla22
© texto e imagens MademoisellePhoto


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