Do feio, all things must conclude

Esboço primeiro
Fotografia, fealdade e imperfeição

A Ana olha pela janela do quarto e vê.
É inverno, parece ser sempre inverno.
Vejo cinzento, parece que a vida real é sempre cinzenta.
A água da chuva transforma o chão em lama.
As casas, a natureza e as pessoas assumem estas cores pardas, neutralizadas.
Até determinada altura existiam imagens saturadas a perder de vista, com os cheiros do caril em campo seco aberto e do suor doce das pessoas.
Depois, ficou sempre sábado no quarto frio da casa da avó, com cobertores pesados, um leve odor de humidade e com a chuva, sempre a cair lá fora.
Às vezes também era primavera e tudo voltava a ter cor, ordem, sentido.
Cresci a pensar em mim como uma pessoa normal, mediana, comum.
Colocada num espaço e tempo coberto por uma melancolia cinza e castanha.
A do quotidiano.
Comecei a construir um universo interior feito de imagens; incolor e ainda sem forma, mas que era uma visão do belo.
E esse universo, vejo agora, era imutável e controlável, sem hipótese de ninguém se perder de mim e era colorido; estando erradicados os sacanas dos cinzas, castanhos e verdes musgos que me angustiavam os dias.
Habituei-me a pensar o belo assim.
Como uma construção de uma realidade alternativa, simétrica, permanente, equilibrada, colorida, seca e feliz.
Na altura em que estava a trabalhar na série O mundo das pequenas coisas- imagens de um presente em pausa, observei pela primeira vez a existência de uma parede de oposição e desconfiança às imagens assinaladas como belas, assim este belo.
Como se a ideia de beleza estivesse associada a uma simplicidade de conceito, ou melhor, à inexistência de conflito.
Sendo que a existência de conflito parece definir a vida, a eterna busca.
Talvez apenas o feio, o grotesco, o desalinhado, possa encerrar uma visão fidedigna, um espelho adequado do que é o ser real.
Talvez as visões pictóricas tenham durante muito tempo idealizado o mundo enquanto belo.
Talvez o belo seja um ideal do passado, já passado.
Talvez o belo tenha sido uma ferramenta sociológica e política de construção de uma realidade ideal, matrix de um sistema.

Esboço segundo
Do feio na história da fotografia
A beleza do grotesco.

Esboço terceiro
As fotografias bonitas estão mortas.
A fotografia.
A fotografia é bonita.
Depois o tempo passa.
As fotografias não podem ser bonitas.
O tempo passa mais ainda.
A fotografia está morta.

ap-cenario05

Cenários de uma República. Coimbra. 2012.

ap-garbage05

Garbage Story’s. Vila do Conde. 2010

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