Cahiers du bonheur

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Switch media

Maio, Capuchos. Manhã.

Passarinhos, sol atrás do arbusto, ventinho a abanicar as ervas.

A Maria preta no meio do verde. Um e outro carro que passam.

Switch media.

Está bem!

Lápis e papel diferente. Talvez seja o necessário.

Recomeço a sentir o desajuste.

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A fotografia.

Talvez da rapariga de TCAV que lá foi e que me fez pensar no que pensaria de mim.

Pareceu-me desajustado falar, talvez porque sinto que os feitos de que poderia falar, são já de uma outra pessoa.

Sim, queixume do dia!

Há já algum tempo que ando a pensar na morte da fotografia.

Até comecei a riscar um texto para publicar no TPP sobre isso.

A morte da fotografia tal como a conheci, o pós-analógico e as consequências no mundo profissional desta mudança.

Adiante, tudo velho, tudo velho.

Há muito tempo também que pensava em deixar de fotografar como forma de pagar a subsistência.

Já foi.

Desde dezembro estou na creperie.

A mesma Ana, outra Ana.

No início falava de mim como fotógrafa.

Depois comecei a achar ridículo fazê-lo enquanto esticava um creme marrons, ou márróne, como diria a Marin.

Mas tenho visto a fotografia, aliás, tenho podido constatar em que maré ela anda.

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Momento 1

Uma revista portuguesa envia uma equipa para fazer um artigo sobre o espaço.

2 fotógrafos e 2 jornalistas.

Muito bom, digno da cobertura de um congresso partidário de dois dias.

E na minha fase de jornais e revistas, a paparoca ficava mesmo só para os repórteres, que assinavam grande “em antes”.

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Momento 2

Reportagem publicitária para revista de maquinaria gastronómica.

O fotógrafo vem armado até aos dentes: leica digital, reflex digital(Nikon acho) e médio-formato digital.

Cartão digital de calibração de cor, ideal para quando se fotografam tecidos, telas e afins.

Mas pronto, deixá-lo!

Como se dizia nos anos 80 nos Capuchos.

Fico a pensar porque terá ido o fotógrafo para aquele trabalho com aquele arsenal tecnológico.

Está uma manhã com uma luz esplêndida, não são necessários refletores nem luz artificial.

O fotógrafo é experiente, calmo, sabe o que faz.

Imagino pela pinta de surfista-quarentão que faça ou já tenha feito fotografia de moda.

Ainda assim, uma mulher que por ali anda (não sei que função desempenha na história), entende que precisa de aconselhar o fotógrafo sobre um ou outro enquadramento que vislumbra terem passado ao lado dos olhos experientes do fotógrafo.

Umas dicas de bonecos bons, imagino eu.

Imagino também que seja por isso que o fotógrafo vem assim armadilhado, para ser respeitado, para o deixarem fotografar em paz.

E ao olhar com todo o meu desdém para a mulher, penso também que essa foi uma das razões que me fez perder a vontade de fotografar para os outros.

Ter que lidar com esta falta de respeito pelo trabalho do fotógrafo.

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Momento 3

Produção de moda em duas fases, com equipa alemã.

Fase 1, fotógrafo alemão com assistente alemã gira.

Fase 2, fotógrafo americano com assistente espanhol com cara de francês.

Máquinas reflex digital, refletores grandes para a luz boa do sol de Lisboa.

Ninguém manda bitaites aos fotógrafos.

Cada membro da equipa tem uma função específica e executa-a de forma eficiente e cool, muito cool.

Tudo é, como deve de ser.

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Momento 4

Jantar e zapping televisivo.

Fotografia Total, tvi.

Ui, hoje não consigo.

Zapping, canal 2, Entre Imagens.

Bem filmado e editado.

O discurso do fotógrafo flui bem, as perguntas devem ter sido bem conduzidas.

Descubro no genérico final, que o programa é do Sérgio Mah.

O rapaz fotógrafo que parece o vocalista dos INXS, começa por me irritar mas decido dar uma hipótese e fico a ver.

Gosto das imagens. Tudo parece fazer muito sentido.

Fotógrafos trabalhadores estes. E sérios também.

Gosto do programa.

Momento 4B

Capuchos, sábado de manhã.

Zapping outra vez e fotografia total, again. Fico a ver.

Não é nem bem filmado nem editado.

A cor, a luz são más.

É absolutamente centrado no autor, nas suas opiniões, no seu portfolio e whatever.

Um especial sobre a nova Leica.

Há rubricas de selfies e de instagrams.

O mundo da fotografia amadora deve gostar muito deste programa.

Fico a pensar que é interessante existirem dois programas assim tão distintos e que, uma autoria assim tão demarcada é até bastante bom.

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Momento 5

Voltei a pensar na minha livraria.

Falei com a Filipa da Stet e às quintas vou até lá.

Faço espionagem consentida e em troca, faço algumas coisas que a Filipa não gosta de fazer.

Questiono-me bastante como poderemos sobreviver com a produção de bens culturais em pequena escala.

Visualizo também uma espécie de pequena feira de vaidades; como o Porto está mesmo muito longe e como às vezes me custa mais abrir a porta da livraria, do que servir um crepe.

A troca entre mim e a Filipa funciona pelos livros.

O primeiro que trago é a Economia do Artista.

Começo a ler.

Muito interessante e particularmente adequado ao momento.

A incapacidade de produção de orçamentos realistas e a questão do infindável trabalho voluntário na área artística.

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Momento 6

Está muito sol e calorzinho.

Na livraria em frente ao mosteiro de Alcobaça, compro um livro do Khrisnamurti para dar à minha mãe.

Vou ter com a Sílvia à Lollipop.

Na esplanada da frente estamos muito bem.

Conheço uma rapariga que faz uns vestidos bonitos.

Falamos em fazer uma sessão de imagens.

Sim, continuo a pensar como fotógrafa.

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Momento 7

A minha mãe entra na loja.

Atrasei-me na converseta.

Beijo a Sílvia e a outra miúda e saio disparada com os meus pais.

Continuo antes de tudo a ser a Tininha e isso, é melhor do que tudo o resto.

 

 

 

 

 

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