ensaio visual

Flanzine#3

Texto: Alexandre Sá e Imagens: Ana Pereira

Coreografia para Quatro Lábios

AMA TUDO

Foi a frase que ouviu saída da boca do pai antes de ele morrer.

AP-boca

 

AMA TUDO

Ficou felicíssima.

O pai, moribundo há semanas, morria finalmente.

A mãe, que nunca tinha gostado do pai, ia finalmente para a cidade “viver como as pessoas”.

E ela, Ana, filha única, livrava-se do fardo de um pai doente, entusiasmava-se com a ideia de uma mãe moderna e sofisticada e ganhava um aforismo.

AMA TUDO

Um aforismo especial, dito pelo próprio pai segundos antes de morrer.

A ela.

Só a ela e mais ninguém.

Olhos nos olhos, dedos entrelaçados, ambos a disfarçar o incómodo pelo cheiro – dele de moribundo. Dela de puta1 – os lábios dela tensos a tentarem acompanhar os lábios dele tensos, como uma coreografia para quatro lábios a tentar jogar a sabedoria de uma vida inteira em duas palavras:

AMA TUDO

Ainda o caixão descia pelos braços dos quatro coveiros Ainda ela conseguia ler AMA TUDO caligrafado no cartão da coroa de flores que pousara no caixão.

Ainda ela não tinha lambido nenhuma lágrima em duas horas de cerimónia quando se lembrou que talvez o pai não quisesse dizer.

AP-boca12

AMA TUDO

Talvez AMA não fosse ama, mas Ana, o nome dela.

Talvez o pai lhe quisesse dizer algo importante mas a morte não o deixou.

Talvez “Ama tudo” fosse “Ana, tudo…” e uma morte a seguir.

1 Ela não era puta. O pai sabia que não era. Mas dizia-lhe sempre: Quem cheira assim são as putas!

AP-boca11

ANA, TUDO

Ana chorou.

A frase AMA TUDO caligrafada no cartão da coroa de flores não fazia sentido.

A história que ela tinha repetido no velório não fazia sentido.

O pai não lhe tinha soletrado um aforismo antes de morrer Ela não se sentia especial e isso doía.

ANA, TUDO

E no tempo que uma lágrima demora a descer do olho até à boca Ana percebeu que não era a morte do pai que lhe doía.

ANA, TUDO

E a cada pazada de terra Ana repetiu a coreografia para quatro lábios que tinha feito com o pai.

AMA TUDO. ANA TUDO. A-MA TU-DO. A-NA TU-DO. A-NA. A-MA. A-MA. A-NA. A-NA. A-MA2.

AP-boca18

AMA TUDO

Ana sorriu da certeza de ser especial.

Ela e o pai tinham dançado juntos um aforismo.

Olhos nos olhos, dedos entrelaçados, uma coreografia para quatro lábios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Dança! Quem sabe se neste mesmo momento não estará alguém

a dançar também e juntos fazem uma coreografia a quatro lábios?

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