Crónicas da província

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 Lisboa. 06 dezembro 2013

Sáio de casa e encontro a Angela que vem da piscina.

Vamos ao café do bairro. Café e chá.

Já são quase horas da visita guiada. Descemos a Avenida e vamos pondo em dia os últimos anos.

Chegamos ao Arquivo já uns minutos depois da hora.

Já lá estavam as outras senhoras. E não estava o porteiro indiano.

A visita é feita pela Paula Figueiredo Cunca, que é juntamente com Luis Pavão a comissária da exposição.

Esta coleção – 12 álbuns de fotografias de Ana Maria Holstein Beck- foi oferecida ao Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa pela família.

Na entradinha, um documentário sobre o processo de conservação e restauro fotográfico.

E dois álbuns (facsimile) para folhear.

Entro sempre ao contrário nas salas.

A sala branca, com uma seleção de cerca de 60 imagens,  impressas numa dimensão relativamente pequena- cerca de 15cm x20cm – com moldura branca acompanhada por um extenso cronograma genealógico.

A edição deste conjunto obedece a uma lógica museológica/ arquivista, no sentido da seriação/classificação homogénea e a sua montagem procura a construção de uma narrativa histórica/sociológica/política relativamente consensual.

Estabelecendo-se as ligações sociais desta família, assim como o seu trajeto e enquadrando-a no seu tempo.

Ao sair da sala branca, já tinha a cabeça cheia de perguntas, mas porquê desta forma, porquê estas dimensões, porquê esta edição, quem são as pessoas, porquê, porquê…

Subo ao piso superior.

Não sei porquê, penso no Mosteiro de Tibães.

Entro num espaço fechado. Com uma projeção e um banquinho.

Bom, gosto disto.

Um documentário sobre o processo de tratamento desta coleção, mas que eu gostava que fosse mais extenso.

Interessa-me conhecer os processos que levam às obras. Neste caso, o trabalho de tratamento deste arquivo e da construção da narrativa que é a exposição.

A sala preta.

Gosto muito da sala preta.

Nesta sala é possível ver (VER) os álbuns originais.

Parece um pequeno palco.

A sala assim escura e iluminadas apenas as estruturas onde estão os álbuns.

Expostas (coladas na parede) uma sequência de impressões de retratos destes álbuns, editadas de forma a realçar as figuras humanas.

Não sei se gosto da coisa do colado, das impressões coladinhas na parede, mas acho que sim.

E gosto particularmente da construção de uma narrativa encenada em torno das imagens.

Na sala seguinte, o acesso virtual aos álbuns através da base de dados do arquivo e uma projeção extensa das páginas dos álbuns.

Ontem fiquei a olhar para esta projeção durante muito tempo.

Sentadinha, que é para pensar melhor.

E ali a olhar para as imagens todas, consegui entender o critério de seleção das imagens da sala branca e a mise-en-scène da sala preta.

Vi também, o que é normal porque cada um de nós tem um pequeno mundo dentro, outras edições possíveis.

Uma absolutamente privada e particular (daquela família), uma baseada na questão do movimento, outra em torno de enquadramentos desenquadrados muito do tempo presente e mais e mais…

Imagino que seja esse um dos critérios da avaliação de um arquivo, as possibilidades que encerra e que não se esgotam na primeira abordagem.

Na entrada folheio o dummie do catálogo, que ainda não está impresso.

Penso que podia ser produzido na lógica print-on-demand.

Penso que gostava que tivesse os documentários que estão na exposição, mas mais extensos, mais completos.

Penso que é importante a exposição ter sido construída desta forma, numa época de crise e em que nada parece ser importante.

Hoje antes de escrever este texto, pensava nas semanas em que estive em Roma e de como a exposição que vi historicamente mais recente (desconfio desta construção frásica mas adiante) foi de daguerreótipos.

Uma bela encenação/homenagem à daguerreótipia, mas que me fez ponderar o peso que a manutenção do passado tem nos orçamentos do poder local/central.

Mas se calhar Roma é Roma, nós somos nós.

E eu vivo muito bem o presente com a cabeça enfiada no passado.

A Angela fala com a comissária e com uma outra senhora sobre as narrativas em torno dos arquivos, pessoais e anónimos.

Fico calada a pensar nas imagens que encontrei daquela vez num boeiro.

Saimos.

Esganadas de fome, vamos comer.

Eu um bife com farinheira, a Angela o bolo de chocolate.

Pomos mais uns meses destes anos em dia.

Regressamos ao bairro.

Mais umas dicas essencias, como a Alice cabeleireira e a mercearia do rapaz indiano com os amigos chineses.

E depois lá vamos às vidas.

Desmarco o jantar com o Francisco. Desculpa Francisco.

Vamos fazer uma carte-de-visite amanhã?

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Lisboa. 06 dezembro 2013

As imagens deste post são umas iphoniquices dum pdf sobre o arquivo de Carlos Relvas, que se encontra no site do estúdio LUPA, do Luis Pavão.

Algumas iphoniquices da exposição no post anterior.

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