Crónicas da província

AP-CP00

porto, novembro 2013

Enquanto espero pela Mafalda para irmos almoçar, vou ao Almanaque beber um café.

Não tenho moedas. Não resisto ao diabo e compro também mais uma revista e pago com multibranks.

A miúda bonita do café fala com uma senhora.

Decido chamar-lhe senhora. Deve ter a minha idade, o que fará de mim uma senhora também.

AP-CP01porto, novembro 2013

Meto-me na conversa.

Interessa-me o que a senhora está a dizer, fala de si própria, de dúvidas e constatações.

Ainda que diferentes, revejo-me nas palavras, no questionamento que as motiva. Somos fruto do mesmo, tempo.

Eu digo-lhe o que acho; da geração que viu os modelos em que nasceu ruírem um a seguir ao outro, sem ver um novo a estabelecer-se.

Ela diz que perdeu a esperança na educação. Eu digo-lhe que a alfabetização não implica per si, a existência de consciência ética, crítica.

AP-CP02

porto, novembro 2013

Sentamo-nos.

Falo-lhe de mim. Em discurso positivo. Afinal não é minha amiga nem psicoterapeuta. É a senhora com que estou a falar enquanto bebo um café e olho para a British Journal of Photography.

Falo-lhe das minhas dúvidas e dos caminhos que se avizinham.

Ela diz-me que a culpa é da literatura! Que a literatura nos manipula!

Rio-me bastante com a ideia.

AP-CP03

porto, novembro 2013

Ela fala-me da Odisseia de Homero.

Digo-lhe que nunca li.

A senhora conta-me a história da manta que Penélope faz e desfaz todos os dias, durante 15 anos.

Já estamos na questão de sempre. Venham as voltas que vier, o sacana do amor.

Conto-lhe que às vezes também penso dessa forma, ou seja, que a forma como penso/sinto é influenciada pelos livros e filmes que vi, ali, entre os 15 e os 20.

Entretanto volto ao meu café, à almofada amarela na janela e aos meus neurónios.

AP-CP04

porto, novembro 2013

Despedimo-nos. A senhora diz-me que em Lisboa tudo me vai correr bem.

Eu acredito nela e digo-lhe que sei que sim.

Antes da Mafalda chegar, escrevo nas notas digitais do telefone o ditote que a ouvi dizer:” Como dizia a minha avó por causa disto do pensar, quem pensa não casa, quem casa não pensa!”

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