a propos de nice

A tela de uma história que não se acende: OpenShow Coimbra 08 de Março e Canhoto Porto a partir de 09 de Março

Mais do que a dicotomia análogico-digital, interessa-me a forma como chegamos aos pontos finais e a ligação entre as imagens e os conceitos, as fotografias e as palavras.

Se o digital veio aumentar alguma coisa, foi o acesso, a democratização da tecnologia, dos recursos. E que na prática profissional jornalística introduziu conceitos como jornalista cidadão e jornalismo multimédia, sendo que este último é de forma ideal uma ferramenta poderosa ao serviço do contar de histórias e de forma amedontrada corresponde à transformação de três profissionais num só- jornalista, fotógrafo e operador de câmara- um superagente multimédia.

Esta democratização do acesso à tecnologia, nivelou também as relações de oferta-procura, trazendo para a batalha profissional fotógrafos e utilizadores das ferramentas fotográficas, com padrões de qualidade e profissionalização altamente diferenciados.

Desde 2003 que o meu processo de trabalho é totalmente digital.

Entre 1999 e 2003, mesmo quando as tomadas de vistas eram realizadas em analógico, a digitalização era já parte integrante do processo.

É prático, liga-me ao mundo.

Não fotografo mais em digital do que fotograva em analógico, muito pelo contrário.

Penso menos nas imagens que faço agora, do que nas que fazia em analógico. Gosto das imagens realizadas em telemóveis de baixíssima qualidade.

Gosto da ideia de sermos flanêurs contemporâneos, a tirar apontamentos visuais sobre o mundo que nos rodeia, com lápis, papel, telemóveis e Ipads- essas estranhas ardósias digitais.

Para onde vão todas estas imagens?

Às vezes penso nisso, mas não durante muito tempo.

Existem já muitos trabalhos criados com base nestes arquivos visuais, perdidos, achados, disponibilizados online, por milhões de pessoas, todos os dias, a cada hora, a cada segundo, num tornar presente, aqui e agora o Family of Man, para lá do que Edward Steichen poderia imaginar.

Na construção do que poderá ser uma memória visual coletiva, a versão em imagens do inconsciente coletivo de Jung.

A memória é uma das questões que atravessa o meu trabalho.

Existem criadores ligados às questões do passado, outros que questionam o presente e outros que indagam o futuro.

Até aqui, tenho olhado bastante para o passado, especialmente para os ecos e vestígios que o passado propaga no presente.

A tela de uma história que não se acende

Quando comecei a apresentar o trabalho dos cinemas, algumas pessoas falavam-me do trabalho do Sugimoto e outras apontavam-me a necessidade de uma aproximação formal à objectividade da escola Becheriana.

Quando iniciei este trabalho, tinha impressas nos meus olhos as imagens de espaços, vazios, abandonados, estranhamente decadentes e belos, que a revista Purple frequentemente publicava.

Quando comecei a fotografar, pensava na possibilidade de uma libertação formal.

A imagem existir plenamente, mesmo que os limites de foque- desfoque, equilíbrios de composição e exposição, não fossem os neutros, os balanceados.

Cada um tem o seu caminho e a minha formação, que numa primeira longa fase tem uma presença forte do fotojornalismo e da escola bressoniana, impôs-me algumas regras formais, que fui procurando limpar.

Interessava-me nestes cinemas a questão da importância da cidade do Porto na implementação do cinema(projeção e produção) em Portugal, paralelamente à passagem de uma lógica de conhecimento/cultura/cinema de autor para a lógica entretenimento/blockbuster que levou ao abandono destas salas, a sempre dificil coexistência do velho e do novo.

Depois, depois não há muito mais explicações.

O processo de trabalho passou muito muito pela questão da produção, os contactos, as autorizações, depois ir aos espaços, ver, sentir e fotografar- não sei porque ordem. E o fotografar já sei, é sempre aquela dança meia improvisada que os pequenos formatos me permitem.

Gostava verdadeiramente de continuar este trabalho, de fotografar todas as salas de cinema abandonadas do país.

E continuar a procurar  e ver esta beleza melancólica do quotidiano decadente.

AP-mobilecaldeiras
Coimbra. Março 2013

AP-atela

 
Porto. Março 2013


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