Mobile daisy- Lucy

Bebo dois cafés no portugal de alcobaça e fico com aquela impressão no estômago. Fome.

Arrumo o caderno vermelho que me vai lembrando as pequenas coisas que tenho de fazer e arrumo o computador, extensão binária da ana.

Ligo mais uma vez ao meu pai. não atende. Ligo também para casa. Nada. Ligo para a minha mãe. Nilt. Ponho os óculos e encaminho-me para o mosteiro. Fotográfo com o telemóvel duas freiras de hábito cinza e branco. Está bom o tempo. Em frente ao mosteiro muita gente, turistas. Não posso andar sempre vestida de preto, que mania.

Sento-me na igreja do mosteiro. A minha tia Lucinda, tia por afinidade, segunda companheira do tio Américo dos olhos verdes, a tia Lucinda vinha sentar-se no mosteiro no verão, para fugir do calor que o corpo grande insuflava ainda mais e que só aqui, no resguardo das pedras o sentia a refrescar.

Eu venho sentar-me no mosteiro, porque aqui, aqui penso bem-as igrejas também fazem pensar as pussy riot.

Gosto do comportamento do som cá dentro, da forma como a luz atravessa com cerimónia os vitrais sem cor e mesmo quando estão muitas pessoas, tudo o que fazem é minimizado pelo espaço.

Atrás de mim um grupo de turistas. Entendo que não distingo o hebraico do árabe.

Mas não são simpáticos, reformulo, parecem não sentir a presença de ninguém exterior ao grupo, ou a minha pelo menos.

Do cimo da minha intuição preconceituosa decido para dentro, são israelitas.

Ouço-os cantar, não entendo as palavras, só reconheço os avé maria.

As vozes parecem vir de outro sítio qualquer, bem mais onírico e inatingível que o interior do corpo humano.

Venho-me embora. Ainda aceno e sorrio à minha amiga de infância Anabela. Gostava de conhecer Jerusalém. Low cost Jerusalém.

Passo por duas crianças com os narizes mais estranhos que eu já vi, parecem gnomos, parecem falsos os narizes, parecem velhos, as crianças.

Um dia destes vi imagens de um parto e o recém-nascido tinha as mãos engelhadas de um velho.

Atravesso o passeio que separa o mosteiro das esplanadas.

Queria fotografar aqueles galos de cerâmica marados que vi naquela montra, penso. Continuo a caminhar.

Vejo o meu pai ao fundo- paiiiii, mas não me ouve.

Vou avançando mais depressa e continuo a chamar- paizinhooooo.

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