Mobile daisy- e somos todos felizes de outra forma

Ao sábado ia às compras com a minha mãe.
Saía de casa com o meu pai também, que nos levava no carro e logo cedinho ficava à nossa espera em frente à casa e quando começava a achar que nos estavamos a atrasar em demasia apitava e eu já sabia que quando chegasse ia levar uma rebocada valente.
O pai ia para a casa das correias e eu ia acompanhar a minha mãe.
Primeiro à praça e o meu pai esperava por nós.
As senhoras dos legumes, do valado, com os dedos engrossados pelo trabalho e os dedos muitas vezes com rachas ao pé das unhas, que eu pensava sempre que deviam sangrar muitas vezes e doer como o caraças, pelo menos se os dedos fossem os meus.
O peixe era um território hostil, as peixeiras da nazaré, cujas histórias de impropérios e sopapos a clientes lhes definiam a reputação de más-comás-cobras e havia uma que eu tinha um medo particular, que era nova e tinha uma mancha grande no rosto, mas a mancha parecia-me sempre uma cicatriz enorme e eu olhava-as sempre, a uma distância de segurança.
A minha mãe ia sempre à mesma vendedora, que tinha uma cara doce e umas blusas brancas bordadas com colares bonitos de ouro e eu pensava sempre, como não se sujava ela no meio do peixe e da água e das escamas e das partes de dentro dos peixes vendidos.
Depois a fruta, passando pelo senhor que tinha as galinhas e por último os queijos frescos.
A minha mãe regateava sempre, sempre o preço- até no peixe- mesmo quando eu sabia que ela até achava que não estava caro.
Depois deixavamos os sacos todos na mala do carro, o pai seguia para a casa das correias e eu seguia com a minha mãe, para o supermercado ulmar.
Quando era início do mês, eu ia com os 500 escudos poupados, comprar a revista K.
Ao meio dia e meia regressavamos a casa e o almoço de sábado, quando eu era criança, era quase sempre figado, depois bifes de cebolada e agora, e já há muito tempo, é peixe grelhado.
Sempre gostei tanto dos sábados de manhã. Assim organizadinhos desta maneira.
Agora na praça, as bancas já não são de pedra, são de alumínio, ainda existem muitos senhores e senhoras com as roupas dos mesmos tecidos, cortes e cores que o meu avô João e a minha avó Maria José usavam, mas também há agricultores biológicos e jovens e assim.
A praça do peixe, está quase vazia e as peixeiras já não amedrontam como antes.
A praça de baixo, quase não tem vendedores e os queijos frescos, branquinhos a pingar já não se vendem, em lado nenhum.
Mas há ainda carapaus secos, coisa boa, que nenhuma associação acética nos vai tirar. E existe o modelo, e somos todos felizes de outra forma.


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