a propósito do fotojornalismo

World Press Photo 11
Lisboa. Maio

Os carros de bebés, sempre os carros cheios de crianças, umas pequenas, outras demasiado grandes. Crianças por todo o lado, a olharem para as imagens, umas chocadas, outras indiferentes, todas ligeiramente embrutecidas.
Como os pais, que circulam ao lado, em frente, guiados pela multidão que avança sem direção, pelos corredores, com a mesma motivação com que caminham aos domingos de manhã por Serralves e aos sábados à tarde pelas zaras e bershkas dos paraísos artificiais.
Digo eu e eu sei tão pouco.
Esta exposição, que premeia as imagens da imprensa internacional, da fotografia de guerra, a todos os géneros da imprensa avança por caminhos novos, que me parecem importantes analisar.
Parar, no meio dos carrinhos de bebés.
Por um lado, a integração do citizen-jornalism nos premiados.
Com o prémio atribuído às imagens auto-representativas que os mineiros chilenos fizeram do seu cativeiro subterrâneo.
Imagens de um amador, do cidadão, que de comum passa a interveniente essencial e único de um evento noticioso, transformando-se no mensageiro da notícia. Sujeito e narrador.
Depois o prémio atribuído a um trabalho interessantíssimo de Michael Wolf, feito a partir de imagens do Google Street View pelo mundo inteiro.
E que se por um lado é um trabalho de registo claramente mecânico e serial, por outro lado traduz o espaço dentro da prática fotojornalística – onde as questões da mimesis da fotografia documental são tão balizantes- para uma conceptualização visual, para a entrada no que Jeff Wall afirma ser a encenação, a presença do ponto de vista do autor no trabalho de carácter documental.
O trabalho de Amit Sha’al, aborda igualmente esta questão, numa conceptualização ligada às práticas pós-modernas no seio da fotografia, visíveis no trabalho de construção de diferentes camadas de leitura, a partir da sobreposição de uma imagem do passado que se coloca no presente e que se refotografa.
Depois a questão da representação, do retrato, nos trabalhos de Joost van den Broek, Wolfram Hahn, Kenneth O’Halloran e que apontam para um apagar das fronteiras entre a prática fotojornalistíca e a do retrato documental dentro dum paradigma artístico, onde é claramente visível o ponto de vista do autor.
A presença de imagens como a de Seamus Murphy de Julian Assange, brutalmente poética, icónica, significativa.
No contexto das imagens premiadas de ambiente, o trabalho de Benjamin Lowy sobre derrame de crude, é muito interessante, numa, mais uma vez, total artistificação do trabalho fotojornalístico e a imagem de Thomas P. Peschak inacreditavelmente (ir)real, dum pássaro que traz à vida a demanda hitchcockiana de Tippi Hedren, em Bodega Bay.
E por último, no trabalho de Gustavo Cuevas a ideia de que o acto fotográfico ainda é e pode ser um momento decisivo.
E que tudo coincide ao mesmo tempo, no mesmo espaço, já. E o agora já é ontem.

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2 thoughts on “a propósito do fotojornalismo

  1. normalmente as pessoas que conduzem carros de bebés estão a usufruir de licenças e talvez por isso tenham mais tempo para ver exposições 🙂 o que é bom! eu não tive oportunidade nem disponibilidade finaceira para isso, portanto agradeço o teu insight e os links também 😉 beijinhos ana*

    1. mas essa é a questão de menor importância no texto…mas sim é o ponto que te toca logo pela ligação à tua vida sim…beijo

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