À janela do quarto só seu

Manual de instruções

1.D’as compras

Nível três, de circulação livre embora firmemente orientado pelas regras do mercado bolseiro estético, num balanço entre a produção de obras e a resposta positiva e atribuidora de sentido pelos pares.

Nível dois, composto pelos ambicioso-cobiçantes da bolha balizante do nível três, em perpétuo estado crítico-pessimista, melancolicamente subservientes e cientes da sua natureza aspirante a.

Nível um, espaço dos criadores que produzem e vivem sem ligações aparentes de submissão, desprezo e/ou ambição aos níveis anteriormente citados.
Mas há ainda outra hipótese, penso eu imbuída do espírito do nível dois!

No nível três encontramos os criadores portadores de verdadeiro talento, essa dádiva etérea mas de aplicação concreta na máquina liberal contemporânea.

No nível dois encontramos os criadores dedicados embora destituídos da centelha divina.

E no nível um, os criadores destituídos de talento mas também de apegos materiais vis.

Nesta visão irónica, cínica e/ ou satírica, salta a questão de fundo deste texto, o mercado da arte e a forma como o artista se relaciona com ele.

No seio do mercado da arte contemporânea movem-se os seguintes agentes: o artista, o crítico, o dealer, o consultor de arte, o coleccionador, o especialista da casa de leilões e os especialistas de museus, directores e curadores.

Partindo do esquema acima referido, faço alguns ajustes à área da fotografia.

O dealer de arte funde-se no papel de galerista e consultor e por vezes comissário e curador unem-se numa só figura também.

Neste exercício de análise fundo igualmente o papel de director de museu com o de comissário, que se afigura um agente central no mercado da fotografia de arte contemporânea.

Defino então uma esquematização, ainda que simplificada, do funcionamento deste mercado.

Os comissários escolhem, promovem e estabelecem ligações entre os diferentes artistas e obras e os críticos analisam e acrescentam valor teórico às obras. Os comissários acumulam muitas vezes também o papel de construtores de valor teórico, ao serem responsáveis pelos textos dos fotógrafos que promovem nas exposições que organizam.

Os galeristas assumem as funções de organizadores, agentes, dealers e mecenas, investindo, divulgando, promovendo, vendendo e em última análise lucrando ou prejuizando invenção Mia Couto style – consoante o nível de sucesso ou fracasso das obras e dos artistas que escolhem representar, mantendo uma necessária linha de diálogo com comissários e coleccionadores.

Os coleccionadores, privados e públicos, influenciados por críticos, comissários e galeristas, compram o que gostam e o que tem valor de mercado.

A criação de grupos, correntes e paradigmas, representa para além de uma livre associação artística, a adição de valor acrescentado às obras e artistas.

À Academia cabe também o papel de criação de valor teórico em volta dos autores e das obras que são produzidas no seu seio, sendo relevante o tratamento dado aos argumentos históricos.

Se o trabalho de um artista/fotógrafo não estiver devidamente alinhado com a história, a estética, a crítica, os seus pares, como se pode definir a natureza da sua criação e de alguma forma o percurso que irá tomar? Como aferir que tanto a obra como o autor continuarão a ter valor no futuro?

E ao artista/fotógrafo, o que lhe cabe fazer no meio desta estrutura?

Procurar espaços para expôr, pensar em que canais divulgar a sua obra e encontrar – nos circuitos mainstream e alternativo – quem divulgue o seu trabalho e acrescente sentido teórico ao seu trabalho.

E, continuar, independentemente do resultado destas diligências, a acordar todos os dias com vontade de sonhar imagens.

Sobre o mercado da arte:

BECKER, Howard S, Mundos da Arte, Lisboa: Livros Horizonte, 2010. ISBN 978-972-24-1585-9

HARRIS, Jonathan, Art, Money and Parties, Liverpool: Liverpool University Press, 2004. ISBN 0-85323-739-5

LINDEMANN, Adam, Collecting Contemporary, Koln: Taschen, 2006. ISBN 978-3-8228-4939-2

MELO, Alexandre, Arte e dinheiro, Lisboa: Editora. Assírio e Alvim,1994. ISBN 972-37-0373-4

O título desta crónica é inspirado no livro A Room of One’s Own (1929) de Virginia Woolf (1882-1941), publicado na edição impressa da publicação sharemag

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