uma história

Num dos últimos dias em que vivi na casa do Porto, ou pelo menos é assim que a história se arquivou na minha cabeça e enquanto lia um livro chamado collecting art, encontrei no chão, ali no largo dos Lóios, que me faz sempre lembrar o Pedro Frederico, porque era ali que ele vivia numa residência, ali num daqueles boeiros(palavra que só comecei a ouvir quando vim viver para o Porto, até lá não tinham nome para mim estas coisas), encontrei a vida de um homem deitada ao lixo.
Quando digo a vida, digo as imagens que por serem tantas e espaçadas no tempo, me contaram a vida dele.
Só trouxe quatro, por terem as outras demasiados detritos e sujidade e líquidos de todas as cores de que o lixo humano pode ser.
E que tudo isto interessa?
Interessa porque consegui reconstruir três pontos na vida deste homem, sei que foi um jovem bonito, saudável e cheio de vida, aparentemente divertido pelas poses animadas, deverá ter tido uma filha, que abraça na fotografia mais recente, sendo eu capaz de presumir que a vida não lhe foi fácil, pelo facto da estrutura facial da última imagem, me apontar para a inexistência de uma quantidade significativa de dentes, que lhe alteram profundamente o rosto, dando-lhe uma aparência mais envelhecida do que provavelmente os anos da identificação civil.
Suspeito que tenha falecido, por se encontrarem no lixo as memórias visuais que contam a sua vida, sendo uma desconhecido, a única pessoa a interessar-se pela posse e reconstrução dos caminhos da vida deste homem,
Ou nada disto talvez seja verdade, pelo menos as considerações finais e talvez este homem só tenha achado que não valia mais a pena transportar consigo as memórias em papel de uma vida que possuía gravadas na sua própria memória, como uma amiga minha que há alguns anos decidiu aliviar o peso material que começava a carregar a sua vida e que não lhe trazia conforto, apenas necessidades extras.
Todo o meu trabalho é marcado por esta sensação, de construção de memória, de recuperação do que foi, esta procura esquizofrénica de uma sensação de beleza do que foi e que embalo sempre na melancolia do que é o presente.
E nada disto é novo.
No que se denomina a história da fotografia, num período que coincide com o final dos anos 90 do séc XX e a que a estética chama pós-modernidade, explorou-se de forma exaustiva e com resultados muito interessantes, o trabalho fotográfico sobre imagens pré-existentes e sobre os arquivos, pessoais, estatais, perdidos em arquivos ou encontrados no chão.

Publico apenas uma das imagens, porque falo da história de um homem real e assim colocada só uma e romantizado o texto, é como se não fosse outra coisa que não uma leve ficção digital.

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2 Comments

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  1. Uma leve ficção digital… No futuro não será fácil encontrar este tipo de memórias perdidas na sarjeta. Pelo menos não no estado analógico… Os que nasceram no século XXI não terão as memórias preservadas em sais de prata. Só em bytes.
    Estou a gostar destas reflexões sobre a vida e sobre o teu trabalho.

  2. outro dia uma colega de trabalho encontrou num antiquário a preço de nada um conjunto de retratos trocados entre duas irmãs no início do século. eram utilizados como postais, escritos à mão na parte de trás. a linguagem coloquial utilizada apenas permitia adivinhar os momentos contados naqueles fragmentos de vida de pessoas separadas por distâncias na altura tão diferentes. muito bonito. tal como a tua história. é um trabalho de vida esse da pesquisa das histórias perdidas das pessoas que já não estão… 😉

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