A Isabel

Este texto foi feito a partir duma conversa que mantive com a Isabel no dia 19 e 20 de Setembro, ao final da tarde no seu atelier em Vila do Conde.
A Isabel tem neste momento uma exposição na Biblioteca Almeida Garrete no sábado quando fui à inauguração pensei que queria conhecer o trajecto da Isabel, vida e obra.
O discurso orienta-se pelas palavras da Isabel e algumas minhas. Pelo meio coloquei hiperligações que me parecem significativos, para quem queira conhecer mais do período pré e pós 25 Abril, essenciais para o entendimento do trajecto.
A Isabel nasceu em Vila do Conde nos anos 50 e aos três anos vai viver para o Porto.
Volta em 1983 com o filho Luis para a Vila, onde continua a viver.O pai de Isabel, Martins Lhano era pintor, depois da morte do pai, a Isabel adoptou o seu nome.
Era um esmaltista de renome antes do 25 abril, mas depois de 1974 o esmalte torna-se uma arte menor.

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A Isabel e a irmã mais velha Graça(arquivo pessoal)

Lembra-se de uma vez, talvez com 10 ou 11 anos ter sido denunciada por uma colega de carteira, por estar a desenhar uma menina de bikini.
A primeira memória que tem da sensação de injustiça social vem da escola primária, onde a sala era dividida em três partes, os pobres de um lado, os remediados ao meio e os ricos do outro lado.
A Isabel sentava-se no meio dos remediados e ao seu lado- na ala dos pobres- havia uma miúda, que se tornou sua amiga que tinha sempre as mãos feridas, com frieiras por causa do frio e das poucas roupas que usava devida à sua frágil situação económica.
E uma vez, como acontecia com todos, a professora chamou essa rapariga ao quadro, para levar com a palmatória, para apanhar o ‘bolo’, a miúda estendeu a palma da mão mas a professora não queria a palma, queria a frente, cheia de feridas e assim foi, acertou-lhe com a palmatória em cheio na mão cheia de feridas do frio de inverno.
E esse é um momento marcante de como esta diferença social e de tratamento não tinha justificação nem poderia continuar.

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Na Soares dos Reis, a primeira moça do lado direito (arquivo pessoal)

Andou na Escola Soares dos Reis e depois nas Belas Artes do Porto, para onde entra em 1971. Termina o bacharelato e começa a trabalhar.
Considera que a escola é importante enquanto forma de atribuir as bases e as pistas necessárias para se traçar o caminho que se quer percorrer.
Mais tarde decide fazer  o 4º e o 5º ano em 1978 e 1991-93 respectivamente.
“A escola permite-nos fazer um trajecto acompanhado, manter a ligação com o que está a acontecer e posicionar-nos perante os fluxos novos.”
A escola foi muito importante e refere o papel de Jorge Pinheiro, o professor que sempre admirou, na necessidade de aprender com os clássicos, as carnações  (a carne) e os panejamentos (tecidos).
A escola, os movimentos estudantis e o 25 abril
Nas escolas era proibido às mulheres andarem de calças e na Soares dos Reis onde andou, era frequente a Isabel e as amigas utilizarem saias por cima das calças, numa tentativa de oposição e confronto às regras.
Na Escola de Belas Artes, o grupo de arquitectura era politicamente o mais activo.
Enquanto hoje existem várias tribos que se congregam em torno da música e depois se orientam e diversificam pelas outras áreas, antes do 25 abril e no período quente pós-revolução, ter ou não ter opinião política e a forma de intervir era o que definia os grupos.
O movimento estudantil era muito forte e ficou ainda mais e mais organizado com a morte de Ribeiro dos Santos, um estudante que foi assassinado em Lisboa numa reunião de estudantes pela polícia.
O movimento estudantil tem o seu auge a nível de organização e acção entre 1971 e 1972.

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Jardins das Belas Artes(arquivo pessoal)

Nas Belas Artes os alunos contestavam os professores por estes (na sua esmagadora maioria), professarem a teoria de que a arte estava acima da política e dos conflitos, numa forma de evitar a opinião e logo a oposição.
A Isabel sabendo de uma chacina que tinha ocorrido em Moçambique, faz um quadro alusivo ao acontecimento, dividindo de um lado os soldados portugueses atacantes e do outro o exército moçambicano defendendo, a sua colega de escultura faz um trabalho em homenagem aos pescadores de Matosinhos.
‘Embora fossemos as melhores alunas das nossas turmas chumbámos no exame.’
Escusado será dizer que no dia seguinte pelas casas de banho da escola, circulava um comunicado a falar do chumbo ’político’ das duas alunas.
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Na detenção pela PIDE(arquivo pessoal)

Os controleiros e os gorilas
Existiam os controladores, que eram responsáveis por distribuir as tarefas e organizar os grupos e indivíduos.
Havia sempre um ponto e um recurso, um encontro num local e um recurso de encontro algumas poucas horas depois. Quanto aos gorilas retiro uma citação do blog a verdade da mentira: ‘ Os gorilas tinham sido colocados nas faculdades pela PIDE-DGS, a polícia política do Estado, para espiar e denunciar os estudantes contestatários e reprimir, à bastonada e ao pontapé, se necessário, as manifestações subversivas. E, de facto, era isso que acontecia.’

A revolução
Durante 3 ou 4 anos a seguir à revolução sentia-se o seu efeito.
Havia debates constantes na rua, nos quais as pessoas mais esclarecidas e mais politicamente activas tinham voz activa.
É nessa altura que conhece António, um metalúrgico, um caso típico do espírito da revolução, o proletário e a artista.
” Sempre fiz parte da luta, mas por amor à mudança, ao sonho de um futuro melhor.”

Viver abafada e sair a salto
Em circunstâncias que interessam para um outro registo que não este, a Isabel párte com o marido e o filho para Paris e estar lá, a trabalhar na ‘dureza’, mas ver a arte à sua volta “fez saltar tudo o que estava dentro de mim”.
Até aí a minha arte era e estava ao serviço da política, arte de rua, arte carregada de mensagem política do partido e naquele momento percebi que precisava de falar do que tinha dentro de mim, por mim.
Achei que ia ser mais útil e verdadeira traçar esse meu caminho na arte, do que continuar um caminho na política.
” A arte foi o que me salvou, o que me permitiu continuar a ser genuína.”
Regressa a público, volta a dar aulas, volta à vida quotidiana.
Começa a fazer ilustrações para a Asa como freelancer, só a docência não era economicamente suficiente.
E surge a possibilidade de propor o seu trabalho à Fundação Eugénio de Almeida e em 1983 começa a preparar a sua primeira exposição, INQUIETAÇÕES.

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Conferência no Museu Soares dos Reis(arquivo pessoal)

Sempre lutando, com muita ‘dureza’.
‘Vim para a vila e fiz aqui a minha revolução artística’. Em 1983, era uma cidade muito parada culturalmente.
“E eu pensei : se as pessoas não saem daqui para ir ver coisas, as coisas vêm ver as pessoas”, música, teatro, exposições. Mas não continuou por falta de apoios.

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Capa do catálogo
Mais tarde foi convidada para organizar exposições para o recém inaugurado auditório municipal. E a seguir esteve na direcção artística da galeria Delaunay de 1996 a 1999.

A obra da Isabel
“O amor esteve sempre presente na minha obra.
O artista não deve explicar a sua obra, nem pensar demasiado nela. Deve fazer, o que vem de dentro. Não gosto de explicar o que faço. O trabalho poderá ser descodificado por quem vê, quem está de fora.”

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Atelier(fotografia AnaPereira)

Ainda eu não andava no quadrado
No início era mais gestual, mais expressionista o meu trabalho.
A Fernanda Peniche uma vez disse-me: “ Isabel, tu és mesmo uma pintora de vila do conde, pintas o vento.”

O vermelho
” O vermelho não é uma fase, o vermelho veio de dentro, veio com a libertação.
O feminino. O feminino é o futuro, quando o mundo deixar de ser gerido pelo predador, quando o homem assumir o seu lado feminino e a mulher o seu lado masculino.Nunca equacionei a divisão entre o lado maternal e o caminho artístico.”

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Comboio Holanda(arquivo pessoal)

A carreira artística
Ao longo do caminho, só ficam aqueles que mantêm a pulsão, aqueles que precisam disto para respirar, para viver.
Se for mesmo forte, por mais que às vezes vás para outro lado, acábas por voltar.
Dantes trabalhava a partir de um feeling, de uma sensação e ia para a tela.
Agora trabalho de forma mais conceptual, tenho o feeling, mas desenvolvo um projecto que me vai guiando.

Os Olhares
Este projecto é muito bonito.
Ando com ele há quatro anos. É um projecto feito por amor.
Como é que nasce? Quando pintava corpos ‘com cabeças’, chateava-me as pessoas acharem sempre que era eu, então em determinado momento decido ”cortar” as cabeças e o desafio nesse período era transmitir emoções, sentimentos através do corpo, sem a expressão do rosto.

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Passagem do milénio(arquivo pessoal)

” Um dia sonhei com uma exposição minha só com olhos e então comecei a pensar nos olhares. Vou contar uma história com olhares!
Eu acho que a minha obra une as artes que são importantes para mim, o teatro, a poesia e o cinema, sinto isso, e cruza-se com a escultura.
Diziam que eu devia de ser escultora quando era miúda, mas a cor seduziu-me mais e penso que a escultura está sempre presente.
No início do projecto ( ELOGIO DO ESSENCIAL, Famalicão, 2004), os olhares tinham uma direcção definida, cinematográfica.
Em vez de inventar olhares, fui buscar os meus amigos e trabalhei esses olhares com eles.
O processo de trabalho consistia em fotografá-los, escolher o olhar e muitas vezes era nesta fase que se tornava visível qual o olhar e pintar.
Eram mais personagens, olhares específicos, emoções.
A cor nasce de acordo com o personagem que quero transmitir e com a sensação que me sálta de cada pessoa.
As cores não se repetem, mudo as nuances.
Penso que a força do olhar e a cor dão uma indicação, tendo o poder de descodificar o sentimento.”

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No atelier(fotografia AnaPereira)

Numa segunda fase do projecto afirmou o Retrato, área mal vista da arte do tempo contemporâneo devido ao papel da fotografia enquanto grande retratista presente e as dúvidas existenciais que trouxe: entre técnica e afirmação artística, comercial e amador.
” Andei sempre contra a maré. Fazia figurativo quando se fazia abstracto, agora afirmo o retrato. Durante 10 anos o meu trabalho foi consecutivamente rejeitado em galerias, bienais, expunha em espaços alternativos, galerias paralelas, a Árvore…
Voltando ao projecto dos olhares, nesta segunda fase conto a história dos meus amigos, dos meus afectos.”

Mais livre a forma, largo o olhar e entro no retrato
Realiza o seu filme desta forma, confessando-se uma cineasta frustrada, mais livre a forma, larga o olhar e entra no retrato.
” Acho que é o momento de nos virarmos para o que é importante, nós, a amizade.
Tocar a parte sensorial, o sentimento, sem moralismos nem clichés!”

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O processo

 

 

#IsabelLhano #Pintura


7 thoughts on “A Isabel

  1. Ana,

    Foi com pele de galinha que fui relembrando momentos e historias lendo e vendo as imagens deste trabalho biografico da nossa querida e contestada Amiga Isabel Lhano.
    Finalmente a justiça se vai fazendo… o reconhecimento lento mas seguro. Um grande exemplo a seguir… a luta , a perseverança e acima de tudo o credo e a esperança.

    Agradeço-te Ana e especialmente um muito obrigado a nossa querida Isabel Lhano por este ensinamento de vida.

    João Pedro

  2. Olá Ana.

    Quando tinha 15 anos e entrei pela primeira vez na Soares dos Reis para o primeiro contacto com os colegas e o professor, este pergunta-nos porque é que ali estávamos. Haveriam muitas hipóteses de resposta, mas ninguém, por vergonha ou por um outro motivo qualquer, não quis ou não soube responder. Então o Professor disse: “vocês estão aqui porque são diferentes, não porque a partir de agora vão ser rotulados como tal, pela maneira de estar, vestir, pintar o cabelo… vocês são diferentes porque sentem de maneira diferente”. Na altura não percebi, mas hoje sei. De facto somos diferentes porque encaramos a vida prontas a senti-la por completo. A Isabel é mais uma prova desta verdade, tal como tu. Só devo agradecer o facto de divulgares a Isabel e dizer-lhe que gosto dela, quanto mais não seja pela cor de cabelo vermelho.

    Andreia Pereira

  3. A mana conta cada história de vida…
    Vou completar a Biografia. Avivar a memória.
    Um pai professor de Arte na Escola privada de Moda e Estilismo GUDI e mais duas irmãs com cursos Superiores Artísticos e pintoras : a Graça Martins e a Bárbara Martins.
    Enfim, uma família de Artistas.O pai como artista plástico realizou exposições em Barcelona e frequentemente expôs em Lisboa na Sociedade Nacional de Belas Artes, no Porto na Galeria Alvarez e etc… Estas palavras são apenas para repor alguma lacuna que induz em erro o percurso do Pai relativamente a”pouco trabalho e nenhum reconhecimento” . Um Pai, dado como artista e que, durante 40 anos, alimentou a família e levou os filhos à Universidade – dizer deste Pai que não teve reconhecimento é, no mínimo, ridículo.
    Querida Ana Pereira e mana Lhano, mais cuidado com as interpretações.
    Beijinhos da Graça

  4. obrigada joão, andreia e alexandra.
    Graça quanto às interpretações convém tomar em atenção o objectivo deste post neste blog, que foi dar a conhecer o trabalho da Isabel.
    As famílias são sempre unidades interessantes de boas e más interpretações.
    E fica registado com todo o prazer os ajustes à verdade.
    ana

  5. Fiquei surpresa com a foto na Escola. Eu estou lá, conheço as “manas”. Era assim que eram conhecidas na Soares dos Reis. Uma bem empertigada, a Graça, (ainda hoje, pelos vistos…), outra boa companheira que alinhava nas provocações “inocentes” que íamos fazendo pela escola. Perdi o rasto da Isabel quando fui para Lisboa, embora soubesse da sua actividade política, estávamos do mesmo lado.
    Reencontro inesperado, no Porto longos anos depois…
    parabéns à Isabel e à Ana.
    ana

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