À janela do quarto só seu – D’o macramê
Ana Pereira 2012
Para onde corre a Fotografia? Abstração sentimental, ficção de um mundo novo ou reafirmação mimética?
A democratização diminui a especificidade do meio fotográfico? E a manipulação digital, que papel ocupa neste cenário?
Qual é a verdade da Fotografia? A sua única e indivisível natureza, agora?
O estudo do pictorialismo fotográfico na contemporaneidade é pertinente pela busca de definição, balizada entre a natureza mecanicista e artística. E pela ponte entre um movimento que nasce como resposta ao amador e o posicionamento da fotografia artística agora, face ao formato digital, democraticamente popular.
O meio pode ser pensado de forma tecnológica, afirma Victor Burgin e fazer uma imagem é efectuar um conjunto de opções, tornando-se o conteúdo do trabalho a súmula das escolhas operativas e de sequenciação, numa atitude – formalismo- que afirma advir do Modernismo Greenbergiano.
Burgin alude também ao pós-modernismo fotográfico, afirmando que a fotografia permite-nos uma visão ilusória de aspectos do mundo em frente à câmara, conduzindo-nos a considerações sobre representação e narrativa. Pertencendo a Fotografia, segundo Geoffrey Batchen a todas as instituições e disciplinas menos a si própria.
Michael Fried desenvolve um outro conceito, Near Documentary, numa linha entre a tradição pictórica do tableau form e a fotografia documental contemporânea, num processo não mimético mas de encenação. Contribuindo para a artisticidade do objecto fotográfico tal como as impressões em escalas não análogas à realidade.
A imagem digital tem espaço quando alcança o futuro, ficção científica tornada já, numa estética positivista de classificação, factual e define-se amadora quando reitera os postulados pictorialistas num discurso subjectivo e poético.
O único reduto consensual: a impressão jacto de tinta em papéis fine-art, com certificado de 100 anos de garantia e que nos leva ao início, para além da busca ontológica, no balanço entre a natureza mimético-mecânica e a artisticidade dos seus utilizadores, como olhamos a plena democratização da criação.
Bibliografia:
BATE, David (2009), Photography the key concepts. New York: Berg.
BATCHEN, Geoffrey (1997), Burning with desire- The conception of photography. Cambridge: Mitt Press.
FRIED, Michael (2008), Why photography matters as art as never before. New Haven-London: Yale University Press.
* texto para exposição das fotógrafas Susana Paiva e Rosa Reis, na galeria Bloco 103