ana pereira

A Isabel

In Uncategorized on September 21, 2007 at 12:51 pm

Este texto foi feito a partir duma conversa que mantive com a Isabel no dia 19 e 20 de Setembro, ao final da tarde no seu atelier da Vila.
A Isabel tem neste momento uma exposição na Biblioteca Almeida Garret e no sábado quando fui à inauguração pensei que queria conhecer o trajecto da Isabel, vida e obra.
O discurso orienta-se pelas palavras da Isabel, na primeira pessoa e algumas minhas. Pelo meio coloquei links que me parecem significativos, para quem queira conhecer mais do período pré e pós 25 Abril, links que encontrei depois da nossa conversa.
Para mais informações sobre a Isabel e sobre o trabalho ver

http://www.isabel-lhano.com/

Obrigada Isabel.

Nasceu em 1953 em Vila do Conde e aos três anos vai viver para o Porto.
Volta em 1983 com o filho Luis para a casa dos avós maternos, onde continua a viver.

http://www.myspace.com/urbanoid2099

O pai de Isabel, Martins Lhano era pintor, depois da morte do pai a Isabel adoptou o seu nome.
Era um esmaltista de renome antes do 25 abril e depois de 1974 o esmalte torna-se uma arte menor, deixando-o com pouco trabalho e nenhum reconhecimento.

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A Isabel e a irmã mais velha Graça(arquivo pessoal)

Lembra-se de uma vez, talvez com 10 ou 11 anos ter sido denunciada por uma colega de carteira, por estar a desenhar uma menina de bikini.
A primeira memória que tem da sensação de injustiça social vem da escola primária, onde a sala era dividida em três partes, os pobres de um lado, os remediados ao meio e os ricos do outro lado.
A Isabel sentava-se no meio dos remediados e ao seu lado, do lado dos pobres, havia uma miúda, que se tornou sua amiga que tinha sempre as mãos feridas, com frieiras por causa do frio e das poucas roupas que usava devida à sua frágil situação económica.
E uma vez, como acontecia com todos, a professora chamou essa rapariga ao quadro, para levar com a palmatória, para apanhar o ‘bolo’, a miúda estendou a palma da mão mas a professora não queria a palma, queria a frente, cheia de feridas e assim foi, acertou-lhe com a palmatória em cheio na mão cheia de feridas do frio de inverno.
E esse é um momento marcante de como esta diferença social e de tratamento não tinha justificação nem poderia continuar.

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Na Soares dos Reis, a primeira moça do lado direito(arquivo pessoal)

Andou na escola Soares dos Reis e depois nas Belas Artes do Porto.Termina o bacharelato e começa a trabalhar.
Considera que a escola é importante enquanto forma de atribuir as bases e as pistas necessárias para se traçar o caminho que se quer percorrer.
Mais tarde decide continuar, o 4º ano em 1978 ainda sem o Luis e o 5º ano entre 91 e 93.
A escola permite-nos fazer um trajecto acompanhado, manter a ligação com o que está a acontecer e posicionar-nos perante os fluxos novos.
A escola foi muito importante e refere o papel de Jorge Pinheiro, o professor que sempre admirou, na necessidade de aprender com os clássicos, as carnações( a carne) e os panejamentos (tecidos).
A escola, os movimentos estudantis e o 25 abril
Nas escolas era proibido as mulheres andarem de calças e na Soares dos Reis onde andou, era frequente a Isabel e as amigas utilizarem saias por cima das calças, numa tentativa de oposição e confronto às regras.
Na escola de belas artes, o grupo de arquitectura era politicamente o mais activo.
Enquanto hoje existem várias tribos que se congregam em torno da música e depois se orientam e diversificam pelas outras áreas, antes do 25 abril e no período quente pós-revolução, ter ou não ter opinião política, e a forma de intervir era o que definia os grupos.
O movimento estudantil era muito forte e ficou ainda mais e mais organizado com a morte de Ribeiro dos Santos, um estudante que foi assassinado em Lisboa numa reunião de estudantes pela polícia.

http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/032363.html

O movimento estudantil tem o seu auge a nível de organização e acção entre 1971 e 1972.

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Jardins das Belas Artes(arquivo pessoal)

Nas belas artes os alunos contestavam os professores por estes (na sua esmagadora maioria), professarem a teoria de que a arte estava acima da política e dos conflitos, numa forma de evitar a opinião e logo a oposição.
Entra em 1971 para as belas artes e no 2º ano, faz um exame prático, com uma colega de escultura.
A Isabel sabendo de uma chacina que tinha ocorrido em Moçambique, faz um quadro alusivo ao acontecimento, dividindo de um lado os soldados portugueses atacantes e do outro o exército moçambicano defendendo, a sua colega de escultura faz um trabalho em homenagem aos pescadores de Matosinhos

http://www.25abril.org/index.php?content=1&c1=2&c2=3

e ‘embora fossemos as melhores alunas das nossas turmas chumbámos no exame.’
Escusado será dizer que no dia seguinte pelas casas de banho da escola, circulava um comunicado a falar do chumbo’político’ das duas alunas.

CREC’S comité revolucionário dos estudantes comunistas

http://www.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Espolio133

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Na detenção pela PIDE(arquivo pessoal)

Os controleiros e os gorilas

http://estudossobrecomunismo.weblog.com.pt

Existiam os controladores, que eram responsáveis por distribuir as tarefas e organizar os grupos e indivíduos.
Havia sempre um ponto e um recurso, um encontro num local e um recurso de encontro algumas poucas horas depois.

Quanto aos gorilas retiro uma citação do blog a verdade da mentira: ‘ Os gorilas tinham sido colocados nas faculdades pela PIDE-DGS, a polícia política do Estado, para espiar e denunciar os estudantes contestatários e reprimir, à bastonada e ao pontapé, se necessário, as manifestações subversivas. E, de facto, era isso que acontecia.’ http://a_verdade_da_mentira.weblog.com.pt/arquivo/095648.html
A revolução
Durante 3 ou 4 anos a seguir à revolução sentia-se o seu efeito.
Havia debates constantes na rua, nos quais as pessoas mais esclarecidas e mais politicamente activas tinham voz activa.
É nessa altura que conhece António, um metalúrgico, um caso típico do espírito da revolução, o proletário e a artista.
” Sempre fiz parte da luta, mas por amor à mudança, ao sonho de um futuro melhor.”

PCP(R) partido comunista português reconstruído e o exemplo da Albânia

http://www.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Espolio15

http://www.udp.pt/

http://avenidadaliberdade.org/

Viver abafada e sair a salto
Em circunstâncias que interessam para um outro registo que não este, a Isabel párte com o marido e o filho para Paris e estar lá, a trabalhar na ‘dureza’, mas ver a arte à sua volta, “fez saltar tudo o que estava dentro de mim”.
Até aí a minha arte era e estava ao serviço da política, arte de rua, arte carregada de mensagem política do partido e naquele momento percebi que precisava de falar do que tinha dentro de mim, por mim.
Achei que ia ser mais útil e verdadeira traçar esse meu caminho na arte, do que continuar um caminho na política.
A arte foi o que me salvou, o que me permitiu continuar a ser genuína.
Regressa a público, volta a dar aulas, volta à vida quotidiana.
Começa a fazer ilustrações para a Asa como freelancer, só a docência não era economicamente suficiente.
E surge a possibilidade de propôr o seu trabalho à Fundação Eugénio de Almeida e em 1983 começa a preparar a sua primeira exposição, INQUIETAÇÕES.
Para o ano a Isabel faz 25 anos de carreira.

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Conferência no Museu Soares dos Reis(arquivo pessoal)

Sempre lutando, com muita ‘dureza’.
‘Vim para a vila e fiz aqui a minha revolução artística’. Em 1983.
Era uma cidade muito parada culturalmente.
“E eu pensei : se as pessoas não saiem daqui para ir ver coisas, as coisas vêm ver as pessoas”, música, teatro, exposições, num remake de maomé e a montanha.
1 momento de arte em vila do conde.

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Capa do catálogo

Que não continuou por falta de apoios.
A Paula Rego esteve cá em 1988
Depois foi convidada para organizar exposições para o recém inaugurado auditório municipal.
E a seguir esteve na direcção artística da galeria Delaunay de 1996 a 1999.
A obra da Isabel
“O amor esteve sempre presente na minha obra.
O artista não deve explicar a sua obra, nem pensar demasiado nela. Deve fazer, o que vem de dentro. Não gosto de explicar o que faço. O trabalho poderá ser descodificado por quem vê, quem está de fora.”

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Atelier(fotografia AnaPereira)

Ainda eu não andava no quadrado
No início era mais gestual, mais expressionista o meu trabalho.
A Fernanda Peniche uma vez disse-me: “ Isabel, tu és mesmo uma pintora de vila do conde, pintas o vento.”
A teoria do vento.
A gente (as pessoas de vila do conde) que anda com o vento à nossa volta.
O vermelho
O vermelho não é uma fase, o vermelho veio de dentro, veio com a libertação.
O feminino.
O feminino é o futuro, quando o mundo deixar de ser gerido pelo predador, quando o homem assumir o seu lado feminino e a mulher o seu lado masculino.
Nunca equacionei a divisão entre o lado maternal e o caminho artístico.
Fui vivendo.

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Comboio Holanda(arquivo pessoal)

A carreira artística
Ao longo do caminho, só ficam aqueles que mantêm a pulsão, aqueles que precisam disto para respirar, para viver.
Se for mesmo forte, por mais que às vezes vás para outro lado, acábas por voltar.
Dantes trabalhava a partir de um feeling, de uma sensação e ia para a tela.
Agora trabalho de forma mais conceptual, tenho o feeling, mas desenvolvo um projecto que me vai guiando.
Os Olhares
Este projecto é muito bonito.
Ando com ele há 4 anos. É um projecto feito por amor.
Como é que nasce? Quando pintava corpos ‘com cabeças’, chateava-me as pessoas acharem sempre que era eu, então em determinado momento decido ”cortar” as cabeças e o desafio nesse período era transmitir emoções, sentimentos através do corpo, sem a expressão do rosto.

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Passagem do milénio(arquivo pessoal)

Um dia sonhei com uma exposição minha só com olhos e então comecei a pensar nos olhares.
Vou contar uma história com olhares!
Eu acho que a minha obra une as artes que são importantes para mim, o teatro, a poesia e o cinema, sinto isso, e cruza-se com a escultura.
Diziam que eu devia de ser escultora quando era miúda, mas a cor seduziu-me mais e penso que a escultura está sempre presente.
No início do projecto ( ELOGIO DO ESSENCIAL, Famalicão, 2004), os olhares tinham uma direcção definida, cinematográfica.
Em vez de inventar olhares, fui buscar os meus amigos e trabalhei esses olhares com eles.
O processo de trabalho consistia em fotografá-los, escolher o olhar e muitas vezes era nesta fase que se tornava visível qual o olhar e pintar.
Eram mais personagens, olhares específicos, emoções.
A cor nasce de acordo com o personagem que quero transmitir e com a sensação que me sálta de cada pessoa.
As cores não se repetem, mudo as nuances.
Penso que a força do olhar e a cor dão uma indicação, tendo o poder de descodificar o sentimento.

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No atelier(fotografia AnaPereira)

Numa segunda fase do projecto afirmei o Retrato, área mal vista da arte contemporânea(devido ao papel da fotografia enquanto grande retratista da contemporaneidade, digo eu).
Andei sempre contra a maré. Fazia figurativo quando se fazia abstracto, agora afirmo o retrato.
Durante 10 anos o meu trabalho foi consecutivamente rejeitado em galerias, bienais, expunha em espaços alternativos, galerias paralelas, a Árvore…
Voltando ao projecto dos olhares, nesta segunda fase conto a história dos meus amigos, dos meus afectos.
Mais livre a forma, largo o olhar e entro no retrato
Realizo o meu filme desta forma(cineasta frustrada, confessa!), mais livre a forma, largo o olhar e entro no retrato.
Acho que é o momento de nos virarmos para o que é importante, nós, a amizade.
Tocar a parte sensorial, o sentimento, sem moralismos nem clichés.

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O processo (fotografia anapereira)

  1. Ana,

    Foi com pele de galinha que fui relembrando momentos e historias lendo e vendo as imagens deste trabalho biografico da nossa querida e contestada Amiga Isabel Lhano.
    Finalmente a justiça se vai fazendo… o reconhecimento lento mas seguro. Um grande exemplo a seguir… a luta , a perseverança e acima de tudo o credo e a esperança.

    Agradeço-te Ana e especialmente um muito obrigado a nossa querida Isabel Lhano por este ensinamento de vida.

    João Pedro

  2. Olá Ana.

    Quando tinha 15 anos e entrei pela primeira vez na Soares dos Reis para o primeiro contacto com os colegas e o professor, este pergunta-nos porque é que ali estávamos. Haveriam muitas hipóteses de resposta, mas ninguém, por vergonha ou por um outro motivo qualquer, não quis ou não soube responder. Então o Professor disse: “vocês estão aqui porque são diferentes, não porque a partir de agora vão ser rotulados como tal, pela maneira de estar, vestir, pintar o cabelo… vocês são diferentes porque sentem de maneira diferente”. Na altura não percebi, mas hoje sei. De facto somos diferentes porque encaramos a vida prontas a senti-la por completo. A Isabel é mais uma prova desta verdade, tal como tu. Só devo agradecer o facto de divulgares a Isabel e dizer-lhe que gosto dela, quanto mais não seja pela cor de cabelo vermelho.

    Andreia Pereira

  3. Obrigada Ana…

  4. A mana conta cada história de vida…
    Vou completar a Biografia. Avivar a memória.
    Um pai professor de Arte na Escola privada de Moda e Estilismo GUDI e mais duas irmãs com cursos Superiores Artísticos e pintoras : a Graça Martins e a Bárbara Martins.
    Enfim, uma família de Artistas.O pai como artista plástico realizou exposições em Barcelona e frequentemente expôs em Lisboa na Sociedade Nacional de Belas Artes, no Porto na Galeria Alvarez e etc… Estas palavras são apenas para repor alguma lacuna que induz em erro o percurso do Pai relativamente a”pouco trabalho e nenhum reconhecimento” . Um Pai, dado como artista e que, durante 40 anos, alimentou a família e levou os filhos à Universidade – dizer deste Pai que não teve reconhecimento é, no mínimo, ridículo.
    Querida Ana Pereira e mana Lhano, mais cuidado com as interpretações.
    Beijinhos da Graça

  5. obrigada joão, andreia e alexandra.
    Graça quanto às interpretações convém tomar em atenção o objectivo deste post neste blog, que foi dar a conhecer o trabalho da Isabel.
    As famílias são sempre unidades interessantes de boas e más interpretações.
    E fica registado com todo o prazer os ajustes à verdade.
    ana

  6. a foto das alunas da soares tocou-me!nos espaldares do ginasio!continua igual!que saudades!

  7. Fiquei surpresa com a foto na Escola. Eu estou lá, conheço as “manas”. Era assim que eram conhecidas na Soares dos Reis. Uma bem empertigada, a Graça, (ainda hoje, pelos vistos…), outra boa companheira que alinhava nas provocações “inocentes” que íamos fazendo pela escola. Perdi o rasto da Isabel quando fui para Lisboa, embora soubesse da sua actividade política, estávamos do mesmo lado.
    Reencontro inesperado, no Porto longos anos depois…
    parabéns à Isabel e à Ana.
    ana

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