January 28, 2010
AIDA
January 18, 2010
a patrícia, a coelho neto, a natacha e a casa com sotão de vidro
quando saí de casa dos meus pais, vim para o Porto estudar e viver numa casa, que tinha um sótão com cúpula de vidro e móveis habitados e trancados.
a patrícia trabalhava todos os dias no estirador dentro do quarto, nas plantas e projectos e alçados.
e eu e a natacha, fazíamos, bem fazíamos outras coisas.
do lado da cozinha havia uma marquise em vidro e madeira, com uma mesa antiga cheia de objectos do ourives que lá tinha vivido e atrás havia um jardim, com escadas e uma laranjeira grande.

Ana Pereira, Patricia, 1993-1994, Rua Coelho Neto
January 15, 2010
the last train*
à procura de outras imagens, descobri uma série em médio-formato cor( com a máquina do Cesário), de uma das últimas viagens que fiz nos comboios da linha Póvoa-Porto…

* bonito bonito é o Mistery Train do Jim Jarmusch*
January 4, 2010
uma história
Num dos últimos dias em que vivi na casa do Porto, ou pelo menos é assim que a história se arquivou na minha cabeça e enquanto lia um livro chamado collecting art, encontrei no chão, ali no largo dos Lóios, que me faz sempre lembrar o Pedro Frederico, porque era ali que ele vivia numa residência, ali num daqueles boeiros(palavra que só comecei a ouvir quando vim viver para o Porto, até lá não tinham nome para mim estas coisas), encontrei a vida de um homem deitada ao lixo.
Quando digo a vida, digo as imagens que por serem tantas e espaçadas no tempo, me contaram a vida dele.
Só trouxe quatro, por terem as outras demasiados detritos e sujidade e líquidos de todas as cores de que o lixo humano pode ser.
E que tudo isto interessa?
Interessa porque consegui reconstruir três pontos na vida deste homem, sei que foi um jovem bonito, saudável e cheio de vida, aparentemente divertido pelas poses animadas, deverá ter tido uma filha, que abraça na fotografia mais recente, sendo eu capaz de presumir que a vida não lhe foi fácil, pelo facto da estrutura facial da última imagem, me apontar para a inexistência de uma quantidade significativa de dentes, que lhe alteram profundamente o rosto, dando-lhe uma aparência mais envelhecida do que provavelmente os anos da identificação civil.
Suspeito que tenha falecido, por se encontrarem no lixo as memórias visuais que contam a sua vida, sendo uma desconhecido, a única pessoa a interessar-se pela posse e reconstrução dos caminhos da vida deste homem,
Ou nada disto talvez seja verdade, pelo menos as considerações finais e talvez este homem só tenha achado que não valia mais a pena transportar consigo as memórias em papel de uma vida que possuía gravadas na sua própria memória, como uma amiga minha que há alguns anos decidiu aliviar o peso material que começava a carregar a sua vida e que não lhe trazia conforto, apenas necessidades extras.
Todo o meu trabalho é marcado por esta sensação, de construção de memória, de recuperação do que foi, esta procura esquizofrénica de uma sensação de beleza do que foi e que embalo sempre na melancolia do que é o presente.
E nada disto é novo.
No que se denomina a história da fotografia, num período que coincide com o final dos anos 90 do séc XX e a que a estética chama pós-modernidade, explorou-se de forma exaustiva e com resultados muito interessantes, o trabalho fotográfico sobre imagens pré-existentes e sobre os arquivos, pessoais, estatais, perdidos em arquivos ou encontrados no chão.
Publico apenas uma das imagens, porque falo da história de um homem real e assim colocada só uma e romantizado o texto, é como se não fosse outra coisa que não uma leve ficção digital.

December 29, 2009
último post do ano
Vila do Conde, 08,12,09
adormeço com o caderno afegão, o yoga e os minutos.
acordo como sempre várias vezes pela madrugada, os sons da porta, os banhos, as preparações matinais.
voltamos a dormir.
sonho muito, que choro porque sou preterida e com obras que são ao mesmo tempo vertiginosas de precipício e de recuperação de património. várias realidades, egrégoras juntas.
acordo. café, email. ainda não há dinheiro nem colocações.
preparo-me e sáio para o atelier.
está sol, o saco com os livros e o computador na outra mão pesam. o rapaz da loja dos animais já lá está, vejo os pátios semi-abandonados com flores, penso na meia elástica que a minha mãe deveria ter.passo numa loja com santos e penso em entrar. arrependo-me, é uma funerária.
sigo em direcção da biblioteca. encontro a senhora simpática da loja de fotografia, partiu o braço ao cair na rua.
sigo, está calor, passo em frente à loja dos pais da mafalda, penso na angélica.
não gosto de fwd de emailes, nunca os abro, só os da minha irmã e da rosa.
sigo. passo na minha antiga casa. a mãe da magui. lembro-me da catalina que afinal é mais alta do que eu me lembrava.
cheira já a mar.os sacos pesam.tenho calor. não penso em mais nada.penso no meu pai que talvez gostasse de caminhar em frente ao mar.
viro a rua. vejo os gatos, as janelas, as flores, vejo pouco porque vou cheia de calor só concentrada em mim.
vejo o pai bonito, do filho bonito que vivem na casa bonita em frente ao atelier.
é bom vir para o atelier, mas sinto falta da vida humana à minha volta.
faço um café, abro as janelas, ponho um pau de incenso tibetanto a arder, coloco tudo na mesa e começo a escrever.
o caderno vermelho.
AnaPereira, O meu pai Maciel na varanda da casa que alugávamos em Armação de Pêra, Agosto 2007























